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Conjunto de mesa

Safras do Cerrado 2026

Foto do escritor: Cris Jardim
Cris Jardim
há 4 horas
8 min de leitura

Quando o Cerrado chega à taça: os vinhos da terceira edição do Safras


Vinhedo Quartetto
Vinhedo Quartetto

Durante muito tempo, vinho produzido no Cerrado era assunto para despertar curiosidade. Hoje, já existe uma história sendo construída por quem decidiu plantar, pesquisar e elaborar vinhos a partir das condições particulares do Planalto Central.


Essa transformação passa por conhecimento, adaptação ao território e por uma mudança importante no calendário da videira. A técnica da dupla poda permite deslocar o ciclo produtivo para que a maturação e a colheita aconteçam durante o inverno, período de menor precipitação, baixa umidade e grande amplitude térmica em boa parte da região. Foi assim que o chamado vinho de inverno abriu espaço para uma nova geografia da vitivinicultura brasileira.


É nesse movimento que o Safras do Cerrado 2026 reúne vinícolas de Brasília e Goiás em uma programação que coloca o vinho dentro da narrativa do território.


Na terceira edição do evento, dedicada à Vaca Velha do Cerrado — do focinho ao rabo, não faria sentido olhar apenas para a carne. O tema fala de tempo, transformação, origem e técnica — conceitos que também atravessam o trabalho de quem cultiva uma vinha e transforma uva em vinho.


Sob a curadoria da Renata Pissolatti, sommelière internacional e especialista em comprar e harmonizar com confiança, em parceria com a chef Leninha Camargo, especialista em enogastronomia, diferentes vinícolas e rótulos do Cerrado foram selecionados para esta edição. Renata esteve à frente da curadoria das vinícolas e dos vinhos que integram a programação, enquanto Leninha desenvolveu os menus em diálogo com os chefs convidados, considerando os ingredientes, os preparos e a identidade de cada experiência.


É um trabalho que começa muito antes do palco. Cada escolha parte do vinho, mas também da cozinha, do produtor e da história que se pretende contar. No Safras, a relação entre vinho e gastronomia nasce justamente desse encontro.


Um território, diferentes maneiras de fazer vinho


Entre as vinícolas presentes está a Quartetto, de Águas Lindas de Goiás, no Planalto Central. O vinhedo nasceu do desejo de produzir vinhos de identidade própria no Cerrado. O plantio começou em 2021 e a primeira safra comercial chegou em 2023. A propriedade trabalha com Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec e utiliza a dupla poda para conduzir a maturação durante o inverno.


O Quartetto Sauvignon Blanc 2023, elaborado exclusivamente com a variedade e sem passagem por madeira, traz notas de melão, pera e goiaba, acompanhadas por nuances minerais e herbais. O rótulo recebeu 91 pontos no Guia ADEGA 2026, com reconhecimento como destaque do Centro-Oeste, além de medalhas de ouro no Brazil Wine Challenge.


Em Brasília, o Vinhedo Lacustre construiu uma história particular. Plantado em 2010, no Lago Norte, é apontado como o primeiro vinhedo da capital. A partir de 2020, o projeto passou por um processo de profissionalização que consolidou a produção de vinhos de inverno e aproximou vitivinicultura, gastronomia e enoturismo.


A dupla poda desloca o ciclo da videira para o inverno seco de Brasília, trabalhando com as características climáticas da capital, entre elas a baixa precipitação no período de maturação e a amplitude térmica.


Entre seus rótulos está o Estrelado Syrah 2025, elaborado com uvas cultivadas no Cerrado de Brasília. O nome faz referência ao céu observado a partir do vinhedo e à constelação de Centaurus, representada no rótulo.


No Safras, a participação do Vinhedo Lacustre vai além dos rótulos presentes na programação. O projeto também foi responsável pelos vinhos que compõem a harmonização do almoço especial de abertura, assinado pela chef Leninha Camargo para imprensa, autoridades e convidados especiais, no dia 16 de outubro.


É uma parceria que traduz a proposta do evento: aproximar quem produz de quem cozinha e fazer com que o território esteja presente não apenas no palco, mas também à mesa.


Vinícola Girassol
Vinícola Girassol

De Cocalzinho de Goiás vem a Vinícola Girassol, que iniciou seu plantio em 2015 e hoje também trabalha com enoturismo. O projeto entra em uma fase de consolidação de seu portfólio e de expansão de sua presença em diferentes mercados, com novos vinhos em desenvolvimento.


Entre os diferenciais apresentados pela vinícola está o trabalho com práticas de cultivo voltadas à sustentabilidade.


Também de Cocalzinho de Goiás, na região da Serra dos Pireneus, está a Vinícola Altino. Sua história atravessa gerações e começa com uma muda de videira trazida da Itália por Avelino Queiroz, que chegou ao Brasil em 1902. A tradição passou pelo filho Altino e chegou à geração seguinte, quando Fernando Queiroz levou as videiras para o Centro-Oeste, instalando-se na região de Cocalzinho.


Hoje, a vinícola busca expressar o terroir do Cerrado goiano por meio de projetos autorais, diferentes métodos de elaboração e uma proposta de mínima intervenção.  


O projeto ainda não recebe enoturismo, mas trabalha com produção própria e também com vinificação de terceiros, mantendo como característica a experimentação e a busca por diferentes interpretações das uvas cultivadas na região.


Em Brazlândia, no Distrito Federal, a Vinícola Claraval nasceu de uma história familiar originalmente ligada à horticultura. Em 2018, a família começou a transformar a propriedade rural em vinhedo, depois de estudar regiões com condições semelhantes e buscar variedades capazes de se adaptar ao território.


A propriedade trabalha com Vitis vinifera e Vitis labrusca, utilizando a dupla poda para conduzir a produção de vinhos de inverno.


O nome da vinícola remete a São Bernardo de Claraval e traduz valores presentes no projeto: tradição, dedicação, respeito ao tempo da natureza e inovação. Os vinhedos e a vinícola são próprios, e a nova linha procura estabelecer uma relação direta com a identidade brasileira.


Os rótulos trazem ilustrações de animais e flores do Cerrado, aproximando a identidade visual daquilo que existe ao redor da vinha.


Em Luziânia, Goiás, a Vinícola Forzza representa outro caminho dentro dessa nova vitivinicultura. O projeto nasceu da paixão de seu proprietário pelo vinho e trabalha com uma produção de pequena escala, em vinhedo de altitude e elaboração artesanal.


Entre seus rótulos está um Syrah sem passagem por barrica, em uma interpretação mais direta da variedade.


Vinícola Citrino
Vinícola Citrino

A Vinícola Citrino também integra a programação do Safras. Localizada em Cristalina (GO) a cerca de 1.200 metros de altitude, consolida-se como um dos grandes destaques da vitivinicultura de altitude no Cerrado brasileiro. Sob o comando do produtor Iure Cozac, o projeto utiliza a técnica da dupla poda para elaborar vinhos finos de alta gama e identidade marcante, com destaque para o elogiado Trilha Sauvignon Blanc e o premiado Louly Rosé. Unindo o terroir único da região a um cuidadoso manejo técnico, a vinícola atrai a atenção de enófilos e do mercado nacional, posicionando o Planalto Central como um polo promissor para o enoturismo e a produção de vinhos sofisticados.


Outro nome presente na programação é a Vinícola Prata do Cerrado, localizado em Samambaia (DF), destaca-se como uma promissora iniciativa familiar que ajuda a consolidar o Planalto Central como polo de vinhos finos de alta gama. Conectada à rica biodiversidade local — que inspira a identidade visual de sua marca com elementos típicos como a flor canela-de-ema —, a vinícola utiliza a consagrada técnica de dupla poda com colheita noturna de inverno para garantir a maturação ideal e o frescor de suas uvas. Responsável pela elogiada linha de rótulos Dom Discacciati, que resgata a herança e a tradição dos antepassados italianos da família produtora, o projeto une rigor técnico e cuidado artesanal para elaborar vinhos autorais expressivos, conquistando espaço em importantes vitrines nacionais e traduzindo com sofisticação o autêntico terroir do Cerrado.


A Vinícola Villa Brasília também participa desta edição, com os rótulos Felice Syrah Touriga e Hind Syrah, presentes em diferentes momentos da programação. O Vinhedo Villa Brasília,  destaca-se no cenário vitivinícola do Planalto Central como um sofisticado projeto de enoturismo boutique focado em vinhos finos autorais de pequena escala. Inspirado pela biodiversidade do Cerrado e conduzido sob uma rica herança cultural que une tradições italianas e libanesas, o vinhedo familiar adota o manejo de dupla poda (colheita de inverno) em um solo argiloso e rico em ferro. Cultivando parcelas selecionadas de Syrah, Touriga Nacional e Cabernet Franc, a propriedade equilibra o rigor técnico da viticultura a um cuidado artesanal rigoroso. Estruturando sua própria adega com foco na sustentabilidade, o empreendimento consolida-se como um destino acolhedor e altamente promissor a poucos minutos do Aeroporto Internacional de Brasília.


Um Cerrado maior do que os nomes que já conhecemos


Existe uma característica importante nessa nova vitivinicultura: ela não cabe em uma única história.


Brasília, Brazlândia, Cocalzinho de Goiás, Águas Lindas de Goiás, Luziânia e outras áreas do Planalto Central mostram que a produção de vinhos no Cerrado está longe de se resumir a um único projeto, uma única forma de produzir ou uma única narrativa.


Há vinhedos familiares, pequenos produtores, projetos independentes, propriedades que estão começando e outras que já acumulam anos de pesquisa e experiência. Cada um constrói, à sua maneira, uma relação com o clima, o solo, as variedades e as possibilidades de produzir vinho em uma região que ainda está formando sua identidade.


Dar visibilidade a essa diversidade também é uma escolha do Safras.


Nesta edição, o evento abre espaço para produtores que muitas vezes aparecem menos nos grandes circuitos, mas que fazem parte, de maneira concreta, da construção da vitivinicultura do Cerrado. São projetos que merecem ser conhecidos pelo que produzem, pela história que carregam e pelo trabalho que existe por trás de cada garrafa.


Porque contar a história do vinho do Cerrado exige olhar para além dos nomes que já ganharam maior projeção.


O território é muito maior — e sua produção também.


Quando a vinha encontra a cozinha  


É essa diversidade de projetos que chega ao palco do Safras.


Na sexta-feira, 16 de outubro, Francisco Ansiliero e Marco Veronese, do Dom Francisco Restaurante, apresentam timo na brasa, chimichurri do Cerrado e mousseline de mandioca, em uma experiência que terá o Sauvignon Blanc da Vinícola Quartetto como parte da composição.


Na sequência, Priscila de Ávila e Gabriel Seixas, da Queen of Pepper, apresentam bochecha glaceada ao chocolate Margo, castanha de baru e baunilha do Cerrado, acompanhada pelo Sauvignon Blanc Claraval, da Vinícola Claraval.


No sábado, 17 de outubro, Fabiana Pinheiro, do Sallva Restaurante, apresenta língua, baroa, cappuccino de cogumelos e farofa de licuri, em uma composição com o Dom DiscacciateSauvignon Blanc, da Vinícola Prata do Cerrado.


Pedro Nunes, da Oficina do Jamón, conduz A Arte do Jamón Serrano, com o Espumante Brut Barbera, da Vinícola Altino.


Mais tarde, Moisés Costa apresenta lombinho do diafragma com farofa do Cerrado, em uma experiência que terá o Sauvignon Blanc Trilha Branco, da Vinícola Citrino.


Às 19h30, Luiz Alberto e Felipe Rodrigues conduzem Do Sol à Cura — A carne de sol em tempos modernos, ao lado do Felice Syrah Touriga, da Vinícola Villa Brasília.


No domingo, 18 de outubro, Ocacyr Júnior apresenta seu Baião de 8, com flat iron, bacon, linguiça e calabresa, em uma experiência que terá o Estrelado Syrah, da Vinícola Lacustre.


O encerramento da programação fica por conta de Andrey Angelim, da Fazenda Churrascada, com costela bovina de 12 horas de cocção, vinagrete de ora-pro-nóbis e feijão mangalô. Para esse momento, foi selecionado o Vinho Tinto Safras Merlot, da Vinícola Altino.


Mais do que rótulos, histórias


O vinho chega ao Safras depois de percorrer um caminho muito maior do que aquele que termina na garrafa.


Existe o produtor que decidiu plantar no Cerrado. Existe a pesquisa para entender o comportamento da videira. Existe a dupla poda, a escolha das variedades, o cuidado com a maturação, a elaboração e a construção de uma identidade que ainda está em processo.


A Vaca Velha, tema desta terceira edição, também fala de tempo e transformação. A carne vem da Fazenda Balsas e os cortes são conduzidos pela Melhor Carnes, parceira oficial do evento desde a primeira edição.


De um lado, um produto cuja identidade também se constrói no tempo. De outro, uma vitivinicultura que precisou aprender a conduzir o tempo da videira de uma maneira própria.


No encontro entre os dois, aparecem três palavras que atravessam esta edição do Safras: tempo, território e técnica.


O vinho, aqui, é também uma maneira de contar o que está acontecendo no Cerrado.


Uma história que ainda está sendo escrita por quem planta, pesquisa, produz e transforma — e que começa a dar ao Planalto Central uma assinatura própria.


SERVIÇO  


Safras do Cerrado - 3ª edição

Data: 16 a 18 de outubro de 2026

Local: Eixo Cultural Ibero-Americano — Brasília/DF

Tema: A Vaca Velha do Cerrado — do focinho ao rabo

Idealização: Juliana Noronha - Presidente do Ativa Instituto

Curadoria Gastronômica e apresentação: Chef Leninha Camargo

Curadoria de vinhos: Sommelière Renata Pissolatti

Apoio: Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Trabalho e Renda do DF

Parceiros: @melhorcarnes  

@fazendabalsas.ondaverde  


Fotos: divulgação

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