• Cris Jardim

Muito mais que belas homenagens, o Dia da Mulher carrega a história da luta por direitos.

Nessa data, precisamos exaltar as formas de empoderamento e a força da mulher.


Instituído em 1921, o Dia Internacional da Mulher, comemorado anualmente em 8 de março, honra as batalhas femininas. A data não se trata apenas de flores, chocolates e frases bonitas de homenagem às mulheres, mas sim de um marco na busca pelos direitos. Nesse dia, se torna ainda mais relevante falar sobre o empoderamento feminino e as conquistas femininas ao longo dos anos.


Existem incontáveis formas de empoderamento. Cada mulher se identifica com algum quesito que a faz encontrar liberdade e alcançar autonomia, muitas experimentam dessa autenticidade, até mesmo, por meio de atividades domésticas e cuidados com a família. Mas, atualmente, a atividade física se tornou um ponto comum onde pessoas do sexo feminino se reencontram consigo mesmas.


O empoderamento é concebido como decorrente das tensões e lutas que as mulheres agenciam para se inserirem nas práticas esportivas masculinas a partir das normas de gênero socialmente impostas. Historicamente os exercícios físicos e os esportes foram masculinizados e hierarquizados, excluindo a participação das mulheres. Somente a partir do século XX que elas passaram a integrar esse mundo.


Se descobrindo

Por conta desse histórico de privilégio aos homens, as atividades envolvendo a educação física se tornaram também uma forma de protesto em que a mulher se posiciona, encontra lugar de fala e mostra que de tudo é capaz. Foi exatamente assim que Francy Kerley Gonçalves descobriu a força da feminilidade.


A educadora física e professora de musculação da academia Bodytech enfrentou um período de depressão após a terceira gestação. À época, a jovem ganhou muito peso e passou a ter problemas com autoestima e identificação do próprio corpo. A distância da família e falta de motivação agravaram a situação. “Fiquei péssima, minha vida conjugal não era a mesma, eu tinha vergonha do meu corpo, não era o que eu queria, não era o que eu esperava. Comecei a entrar em depressão porque não me enxergava bem, não tinha saúde”, conta Francy.


Após passar por essas dificuldades, a personal trainer voltou à Brasília e ingressou na faculdade de educação física. “Foi aí que, por influência do meu professor da faculdade, comecei firme no exercício físico”, relembra Francy. A partir de então, tudo mudou. “Após a gestação eu estava com 77kg, devido a depressão passei a pesar 49kg. Depois que comecei a fazer exercício físico eu fui ganhando massa, meu corpo e minha saúde foi ficando melhor e minha saúde mental mudou completamente, para melhor”, pontua.


“Minha autoestima melhorou de uma forma inexplicável. Ao me ver eu me sentia bem, eu pensava e falava coisas para mim mesma que há muito tempo eu não pensava e dizia. Uma mulher entrando nos 30 anos, com três filhas, e ainda assim me achava linda. Eu conseguia mostrar para outras mulheres o quanto, com dedicação e olhando para si, a gente consegue cuidar melhor de nós mesmas e o quanto o exercício físico consegue mudar a nossa vida”, afirma a personal.


Durante esse processo, Francy também encontrou na atividade física uma forma de exalar seu poder como mulher. “Hoje a minha autoestima é tão grande que eu sinto mais orgulho de mim, do meu corpo, do que quando eu tinha 18 anos. Eu consigo influenciar minha filha mais velha que hoje é judoca, as minhas filhas mais novas que todas praticam atividades físicas e também vão entrar para o judô agora, então é algo que é como uma corrente. Não tem nada melhor do que você se sentir bem, ser uma mulher feliz e realizada e poder transmitir isso para outras mulheres”, revela.


A escolha pela educação física também foi uma forma de se reencontrar. Francy, quando criança, era árdua praticante de atividades como vôlei, futebol, queimada. Na ingenuidade e pureza da infância, a atividade física já a fazia se sentir melhor e se conectar consigo mesma.  Hoje, ela enxerga a área em que atua como a mais bela forma de empoderamento feminino.


“A área que eu trabalho, como personal trainer, tem mulheres lindas, competentes, maravilhosas. É surreal ver o quão longe podemos chegar e o quanto as mulheres são fortes e podem passar por cima de todos os problemas, sem deixar a família de lado e conseguir vencer e se realizar pessoal e profissionalmente”, conclui.


Oportunidades desiguais

A consciência corporal é um dos caminhos para a construção da subjetividade, e extremamente essencial para que a mulher se ponha no mundo como “senhora” de sua circunstância. A consciência de si é o primeiro passo para a autonomia, pois não há consciência de si que não passe pela consciência do próprio corpo, neste caso, o feminino. Nesse sentido, a atividade física é um dos principais caminhos com destino à conquista do reconhecimento do corpo.


Infelizmente essa jornada, para as mulheres, é mais árdua. O “Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional sobre Atividades Físicas e Esportivas e Desenvolvimento Humano” sobre o Brasil, desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, destaca que, na Constituição brasileira de 1988, o lazer consta como um direito social, e o fomento às práticas esportivas formais e não-formais é um dever do Estado.


No entanto, em torno de 65% da população brasileira com 18 anos ou mais de idade não pratica atividades físicas e esportivas. Alguns marcadores sociais de diferença interferem nessa prática, como escolaridade, renda, classe social, deficiência e gênero. O relatório destaca que a prática de exercícios físicos e esportes por mulheres é 40% inferior aos homens.


Embora as mulheres representem mais de cinquenta por cento da população mundial, em todos os países do mundo sua participação nos esportes é menor do que a de homens e meninos. Para que o esporte seja garantido a todos e a todas, são necessárias ações que levem em conta as desigualdades de gênero e discriminações existentes contra mulheres.


A jornada dupla e, muitas vezes, até tripla das mulheres é outro obstáculo. Cuidar da casa, dos filhos e ainda encontrar tempo e disposição para praticar outras atividades, impede que mulheres busquem a autonomia e a melhora do bem-estar. Mas, mesmo com três filhas, Francy encontrou motivação para mudar de vida. “Além das minhas filhas, eu busco motivação em uma conversa que tive com uma pessoa e ela me falou o seguinte: ‘eu não sei por que você ainda está indo pra faculdade porque com filho, com casa, eu acho que você não vai chegar tão longe. Acho que você não vai concluir o curso’. Essas palavras ecoam até hoje e eu demonstrei que fui capaz de concluir, estou me programando para começar outra faculdade e tenho apoio de quem eu preciso ter o apoio, que é a minha família”, expõe a fisiculturista.


Nesse 8 de março, essa é a mensagem que as mulheres merecem receber. Olhar com amor para si mesmas e encontrar uma forma de buscar a independência, autonomia e se colocar na sociedade como donas de sua própria existência. Assim como Francy, que hoje é fisiculturista e, mais uma vez, encontrou no amor pelo esporte uma forma de se impor no mundo, a força feminina deve florescer e resgatar a essência do dia da mulher como uma data que marca a luta por direitos e igualdade.


Fotos créditos para divulgação.